terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Inveja até da lua.



Por Luna Talia

Ela está lá, inteira, com seu lume estonteante.
Eu, aqui, permaneço pela metade, com minhas dúvidas desgastantes.
Tudo bem, em três dias ela será vista pela metade, e não seremos exteriormente diferentes.
O que mais importa nessa vida mesmo é como te veem e não como você está.
Pela inveja, busco imagens que me ajudem a lembrar onde eu me deixei.
Qual esquina ou viela está a outra parte de mim que não se vê?
E quantos pedaços meus há por ai?
A quantas pessoas pertenço agora, ou seria quantas me furtam ao me pertencerem.
A vida é sempre um enigma indecifrável, mas compreensível quando se desiste de compreender.
Você possui pedaços que não são você, estradas que não são suas.
Mas este é você e este é seu caminho agora.
Mas eu aceito, ter inveja até da lua, sou do tipo que quer roubar o impenetrável e ser o impossível.
Invejo até a lua.
Paraliso minhas possibilidades mais vitais com meu desejar onírico.
Mas porque até a lua? 
Ora, se tiver que invejar algo, deve ser algo impossível, alto, longe, tipo um satélite natural de um planeta estranhamente habitado, tipo.
Dizem que inveja é falta de capacidade, a minha é força de vontade de ser sempre brilhosa, total, imensa, para o mundo inteiro, sempre.
Eu não sei ser para mim inteira quando para os outros pareço metade.
Eu preciso estar inteira, embora parte de mim não se tenha notícia.
O mundo precisa achar que sou a lua.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A âncora da mediocridade.


Eu queria aportar, acampar no eterno vazio do mundo, queria desesperadamente montar minha barraca e colocar minha tripulação de pensamentos em qualquer lugar distante de toda essa bagunça entediante que chamam mundo, queria fixidez.

Esse era um pedido desesperador de um marujo cansado que clamava por terra firme, por ordem, sim, eu não sabia que todo ordenamento pede um pouco de caos, que toda terra firme precisa de fortes ondas pra lembrar a beleza do Arpoador. 

Eu queria ordem, queria leis fixas, queria viver um único ritmo, viver o mesmo roteiro vagaroso previsível e entediante que só apaixona seres fúteis como eu.


Então corri muito em busca de um lugar fixo, atrás de uma quimérica paisagem distante e não mutável, onde eu fosse dona de mim e do mundo que eu quisesse projetar, um mundo desenhado uma única vez sem direito a reparos.

Mas a vida se descortinava a cada instante como uma eterna aventura, um eterno mudar de cenários, de gostos de vontades e nunca me decidi sobre onde acampar, até que uma indecente verdade a mim veio e esta é que o único lugar que é digno de nos possuir somos nós mesmos e o único lugar que nós merecemos é o mundo inteiro.

Então fui criando apreço pelas paradas obrigatórias que a vida me deu, pelas encruzilhadas, pelas novas paisagens, pela dúvida nas bifurcações. O amor ao caminho era agora maior e mais empolgante que a previsibilidade de um destino final. 

Hoje não quero um único teto, um único chão, uma única casa, uma única ideologia. Uma única mania. Eu quero qualquer lei, qualquer paisagem, eu quero cada instante estar, cada instante ser, e cada vez menos ter, menos pertencer.

Hoje minha âncora está no ar, meu navio é qualquer lugar.




quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Prefiro ser essa metanóia ambulante.



As pessoas precisam te definir em único adjetivo: ela é marxista, neoliberal, calvinista, fundamentalista, liberal ou esquisita?! Querem sempre que tenhamos uma opinião formada sobre tudo e todas dentro da mesma ordem ideária.

Eu prefiro ser essa metanóia ambulante. 
Prefiro ter apenas uma opinião e esta é que, não preciso ter uma resposta para todas as perguntas sempre. Um título para todas as minhas ideias. Ser reduzida a um rótulo academicista ou teológico. Não preciso. Mesmo sabendo a fonte da resposta de todas elas. Não preciso ser ou calvinista ou armeniana, comunista ou liberal, ser histórico crítica ou gramático histórico, ser freudiana ou detestar psicologia, feminista ou patriarcal. Sobre ser ou não ser, estar ou não estar, porque não posso apenas caminhar? Viver, ler, entender paulatinamente ambas as partes sem me agarrar a uma delas todo tempo.
Posicionar-me no essencial e divagar sobre o secundário. Que necessidade é essa de ordenar o caos com respostas superficiais e sempre prontas, temos primeiro uma opinião depois averiguamos os fatos! Mas sempre temos que ter uma opinião.
A única coisa que sei de mim, é de minha caminhada com Cristo, é de que com ele aprendo a ser melhor, e fazer o melhor para os demais.
Não apenas que nele há verdade, mas que ele é a própria Verdade.
Sou Tomé e todas as suas dúvidas, sou Pedro três vezes. Sou aquele que recebe um pão molhado como sinal de traição e ainda sou João, o amado.Sou Abraão largando tudo e indo para uma terra que não sei onde fica.

Caminhar com a Verdade e para a Verdade é mais interessante que rotular esta verdade, delimitá-la, reduzi-la todo tempo.
Quero continuar a aprender com todas as partes, caminhar com todos quantos forem possíveis. Cristo não virou as costas para fariseus, publicanos pecadores ou prostitutas, ele se entregou por todos e com estes viveu.


A verdade não se reduz a um pensamento sistemático sobre tudo, uma ideologia, um pensamento hermético, reducionista. A Verdade é a caminhada com uma Pessoa que renunciou o domínio político do mundo para habitar nos corações, que carregou a culpa de uma humanidade inteira, sem ser culpado de nada. Que não tinha formosura alguma, mas era o único capaz de reconciliar todas as coisas consigo. Que brotou de uma terra seca para adubá-la. Que lavou pés sujos de traidores por amor. Que talvez não pregaria nossas pregações, não teria o envolvimento político que temos ou a teologia sistemática que produzimos. Esta verdade esteve entre nós, e esta é, Cristo sobre o qual deve estar submetido o senhorio de nossas vidas.
Um dia quem sabe eu abrace um desses títulos e tente exorcizar o oposto da humanidade, por enquanto, eu prefiro ser essa metanóia ambulante. Prefiro ser crente ateia, marxista capitalista, conservadoramente liberal, feminista-machista e, raiz quadrada de onze. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Quem és: as estrelas respondem.


Eram 01h15min da manhã. Meus dois cômodos sem janelas não me continham e eu não cabia neles. Precisava ver as estrelas. Fui então para o quintal da vizinha, eu sei que Deus perdoa essa. Deito sobre o chão escuro e frio, lar de possíveis insetos. 
Estico braços e pernas como uma criança que faz anjos na neve e vejo diante de mim elas se descortinarem. Um espetáculo. 
Elas começam a me responder graciosamente com a mais nobre filosofia às perguntas mais atormentadoras da humanidade:

QUEM EU SOU e PORQUE EXISTO.

A existência silenciosa delas, lembrou a minha. Só a existência. Só o brilho. Em puro silêncio cósmico.
Pareciam estar muito bem decididas sobre sua identidade. Sobre aquilo que eram. 
Estariam lá lindas, brilhantes ainda que quase ninguém as visse naquela madrugada.
Estariam lá ainda que alguém questionasse sobre sua importância, origem e existência.
Sua beleza não era diminuída pela falta de pessoas para contemplar nem seu valor diminuído por falta de pessoas que compreendessem sua existência.

Eu posso conquistar tantas coisas, e não possuir nada que realmente preciso. 
Posso ser muito para os homens e uma ameba para o universo.
Ser nada ao querer ser mais que sou.
De que valeria eu conquistar o mundo e me perder de mim mesma por achar que eu, sozinha, mesquinha, tenho respostas dentro de mim, me autorrealizo e existo só?
De que vale, se parte de mim está lá fora, se eu não existo em mim.

Se eu nunca havia me conhecido, era porque eu nunca havia me submetido ao conhecimento de Deus, do universo, da criação. Era porque eu ainda não havia me submetido ao meu lugar na constelação de sua vontade. Ao conhecê-lo, eu entendo o outro e vivo alegremente com o que já sou. Ao conhecê-lo eu chego a plenitude de minha existência.

Eu nunca serei Deus, mas eu sou parte dele para as pessoas próximas a mim. 

Elas nunca serão o sol. Mas elas sempre dependerão de sua luz para serem algo além de rochas gigantescas lançadas no espaço. Elas são parte de uma criação constantemente criativa. Nisso se autorrealizam e vivem a beleza e plenitude de sua existência.
Só há autoconhecimento, autorrealização, plenitude e satisfação se me distancio de minha própria existência, particular, mesquinha e me lanço à dança do espetáculo da criação.
Se eu não desse ouvido à voz que ontem queria me arrancar de minha mediocridade, eu jamais teria sido devolvida à minha própria existência. 
Existir integralmente é lançar-se à vida segundo a vontade engenhosa e perfeita daquele que a fez.
Existir é mais que um, é mais que ser, é mais que estar no mundo, é não viver pra si. 


    “Pois Nele Vivemos, nos movemos e existimos.” Atos 17.28

“Pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas”. Romanos 1 19-20

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Como acabar com um relacionamento que nunca começou.

A forma mais fácil de se frustrar em um relacionamento é forçá-lo a começar antes do tempo.
A forma mais suicida é achar que ele não tem um tempo pra começar. A mais ingênua é pensar que sempre será o tempo. A mais esnobe é achar que ele necessariamente precisa começar. A mais burra é não perceber que ele já começou. A mais clichê é achar que existe ex relacionamento. Mas a forma mais rápida de fracassá-lo é dar a ele a profundidade que ele não suporta. Precisamos entender os limites, o peso que cada relação suporta, a singularidade de cada uma, o grau de intimidade possível. É preciso desacelerar algumas, tirar a confiança gratuita de outras. Pé no acelerador, só com muita certeza. Mas não se preocupe, ela raramente vem. O mais prudente a se fazer é relacionar-se consigo mesmo. Saber estar sozinho antes de ter alguém ao lado para não precisar estar sozinho, com alguém do lado. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O prazer de ser brega.



Enquanto a multidão de pseudoestudantes caminha lentamente para a liberdade, na saída da escola, uma garota chega me olhando de cima a baixo exclamando: “brega, brega, brega”. Gente como assim? Só porque estava com uma saia de crochê azul linha princesinha brilhosa de forro preto e uma bota bege de material emborrachado? Ah, injusto né?  Havia acabado de chegar de Sampa para o Maranhão e meu cérebro ainda não entendia que algumas roupas são inapropriadas no calor. O que é? Mesmo no frio?. Mas é que hoje eu faço birra, sou sem vergonha mesmo, coloco um tênis rosa sobre uma calça azul, oi? ninguém usa? Aí que tá o legal da combinação. Eu sei que pego pesado indo assim pro meu ambiente de trabalho que pede um social. Mas para além do mundo da moda, eu quero discutir atitudes e posições.
Por que você não bebe? Só um pouquinho? Ah sente a lombra aí vai, não vicia. Ah, você precisa conhecer boate tal! E esse papo medieval de virgindade? E é tanto John no Rock que acho que só conheço o rodado do Lennon porque de qualquer forma sou desse mundo. O quê? você nunca leu nenhum dos 50 tons de alguma coisa? Por que ao invés de escrever para um blog que ninguém lê você não vai ler mais teoria? Sai de casa sem maquiagem? feminista. Lê a bíblia todo dia? jesuíta! (A propósito que prazer ouvir isso de um ateu de mentirinha). Tudo bem que comprei um óculos da TB (não sei como escreve) que é bem modinha. Mas há muitos motivos para as pessoas me julgarem brega.
Eu sei que sou exótica diante dos padrões que se estabelece. Mas afinal o que é ser brega?
Para mim é seguir a moda no vestuário, na literatura, no face, na carreira, é ser parecido com todo mundo, sempre, em tudo. É não deixar sua singularidade em você. Todos temos algo diferente, gostamos de coisas que ninguém gosta, vemos beleza onde ninguém vê. Mas acabamos por treinar nosso olhar segundo as vontades estabelecidas como norma, balizando nosso querer na vontade comum, nos olhos que nos olham.


Vou ser mais bíblica porque é isso que me convém, vou ser mais poeta porque é assim que respiro. Vou pedir suco de laranja sem-vergonhamente. Vou usar mais sandálias de couro no mesmo dia que usar aqueles óculos esquisitos da vovó, vou ler menos quando não estiver afim. Vou ouvir os ‘John’s’ quando quiser ouvir. Vou me jogar na apologética que me move para Cristo, vou conversar mais com os que menos se conversa. Vou dar um abraço na amiga e sair correndo. Vou pro culto de domingo de converse. Vou deixar a louça pro dia seguinte, ou talvez semana. Vou pensar medievalmente quando esse for o certo e conveniente. Vou caminhar e comer jujuba. Vou celebrar quem sou. Vou dar um pedala generoso no meu irmão mais novo. Vou inventar música no chuveiro. Vou lutar contra injustiça social e comprar livros caros, sim. Só esse luxo consumista, tá? Vou chegar atrasada na reunião de colegiado que começou há 20 minutos só pra publicar esse texto =) Vou aplaudir de pé gente que entendeu a vida, mas ninguém entendeu que ela entendeu.  
Vou ser brega enquanto essa for quem sou. Um beijo sociedade.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Companhia ideal:

Mulheres inteligentes são insuportáveis?


Num barzinho, após rirmos de diversos assuntos, uma amiga (também violentada pelo fato que quero aqui investigar) inteligentemente solta essa pergunta a dois professores universitários relax que temos de Filosofia: Porque homens preferem mulheres menos inteligentes menos questionadoras e mais submissas?  Não esqueço os segundos de entre olhares em que apenas as palavras ‘não’ e ‘depende’ ecoavam em meio a busca de argumentos.
Minha conclusão? Porque é mais cômodo, é confortável, é ele quem ‘manda’, ela pouco reivindica. Mulheres inteligentes no geral são muito zuadentas (algumas não se contentam em descarregar em seus blogs), questionam tudo, sempre tem uma opinião diferente, não gostam de filmes dublados ou pouco choram em filmes românticos (as minhas amigas sabem que geralmente durmo), mulher tem que ser ‘mulher’, feminina, sensível, bem vestida sempre, sem odores, talvez com dores. Eles querem uma flor, uma escrava, um mel, um réu. Não sou militante feminista, na verdade sou bem machista, eu só queria ter espaço pra ser o que sou.
Não generalizo. Mas já apostei muito em amigos inteligentes, que eu imaginava a companheira como sendo um monstro intelectual e no final, elas são só bonitinhas, charmosas, e em sua maioria ingênuas. Claro que deve existir a classe das bonitinhas, charmosas e inteligentes, não é meu caso nem o das que conheço. 
Ainda tem a questão do que de fato é ser uma mulher inteligente. Eu não tenho inteligência nem pra delimitar isso, talvez no final das contas eu só seja chata. Mas existem mulheres que defendem que ser mulher e inteligente é saber jogar charme, marcar presença, ser sensual sem ser vulgar (o que acho totalmente impossível). Ou que a realmente inteligente, mantém a beleza ao lado do cérebro. De fato, a gente tem que cuidar de todos os aspectos de nossa existência. 
Mas se despreocupamo-nos de certa forma da aparência é para melhor abraçar o conhecimento. Se não jogamos aquele olhar, não nos ligamos em ‘jogar o charme’, na certa já lançamos um trocadilho, um sarcasmo, esse é o charme de algumas de nós, é aquilo que conseguimos ser.
A questão que tive que assumir é que enquanto eu espero que inteligentes namorem inteligentes, outros esperam que bonitos namorem bonitinhos, negros negros, brancos brancos. Ver esse padrão quebrado é  até estimulante. 
Mas a ideia é que talvez eles não queiram uma cópia de si ao seu lado, buscam completude. Alguém que é o que eles não são (O que ainda é estranho porque os bonitinhos ainda preferem as bonitinhas) Mas se assim for, então o que podemos fazer é esperar um meso-inteligente, que precise de completude intelectual. 
Por que um só bonitinho, no nosso caso, não resolve, o dominaríamos mais que nossa natureza permite. Um totalmente inteligente talvez não ache que precise de uma mulher questionadora ao seu lado, prefere fazer isso sozinho. 

Então, mulheres inteligentes são insuportáveis? sim, mas isso ocorre quando homens buscam uma relação que escapa da reciprocidade.